A ex-deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro encerra grande parte das suas conclusões com uma enfática pergunta: “Está claro?”. Na mesma platéia para quem a economista perguntava se estava sendo direta o suficiente alguns foram por ela distinguidos como protagonistas dos que podem ser cruéis efeitos da crise no Brasil caso não sejam combatidos: empresários que praticam demissões em massa neoliberais arrependidos e uma classe que ainda mantém ranço contra um Estado forte. Para ela são justamente as políticas de Estado e as políticas públicas de proteção social que vão garantir um horizonte de diferença frente aos métodos que ficaram petrificados a todo custo durante o largo período neoliberal no Brasil.

Conceição foi a grande interlocutora de Lula durante a fala do presidente da abertura do seminário ontem (5) pela manhã. Quando o Presidente lembrou a importância de pensar as diretrizes que devem basear argumentações na próxima reunião do G20 foi o nome da economista que ele citou. “Os outros países não têm uma Petrobras. A PDVSA venezuelana não tem o fôlego da Petrobras e já está muito vulnerável porque ela sim era um grande exportador de petróleo o que não é o nosso caso. O Brasil está muito bem em relação aos outros que não têm um BNDES um Banco do Brasil uma Caixa Econômica Federal. Isso é importante. Para resistir ao lado do crédito público e do investimento publico” disse Conceição.

A avaliação da economista atinge também as ações da iniciativa privada no Brasil. “A dúvida é poder ou não resgatar o investimento privado o ciclo de crescimento recente tem um componente enorme de crescimento de investimento privado. Imaginar que vai ter investimento nos setores da agroindústria não é provável. Aqui mesmo perguntei a um empresário da agroindústria como andava o segmento e ele me disse não vai bem. Claro que não vai bem. O mesmo também não é provável nos setores minerais. Se a recessão mundial se agravar e tudo indica que sim porque o conjunto de medidas que estão sendo tomadas não tem coordenação e peso suficientes para resolver a questão central que é a questão da crise financeira americana vai ser muito delicado”.

O Mercosul por isso terá papel fundamental no enfrentamento da crise segundo a professora. As escolhas do governo federal pela ampliação do leque de parceiros comerciais também porque o próximo período é de tensão e conflitos de interesses mais intensos. “A nossa capacidade de exportar graças a uma política externa mais aberta e mais independente – que inclui o Oriente Médio a áfrica e a ásia entre os parceiros fundamentais – vai ser mais complicada. Vai ter atrito mas o nosso presidente é uma pessoa paciente e alegre atura o mau humor dos demais presidentes latino-americanos com muita tranquilidade” brincou Conceição. “Nosso presidente tem muito bom humor e por isso é otimista” emendou após os risos da platéia.

Conceição tem lá suas preocupações contudo. “Não dá para garantir salvo sob liderança política concreta de nome e apelido a continuidade de um projeto de desenvolvimento. E não dá porque nós não temos hegemonia nem da burguesia nacional os senhores que estão aqui sabem que não são hegemônicos nem do setor internacional nem da sociedade civil. Isso complica porque permeia os interesses e a mídia não é nada consequente. Por mais que se diga que a mídia não está incutindo o pessimismo ela está afirmando que devemos ter cuidado com a saúde fiscal. Imagina a pessoa numa crise como esta com a situação fiscal que está muito bem obrigado. Está melhor que a maior parte dos países do mundo. E ai recomenda-se cuidado a ponto tal que o Ministro da Fazenda se vê obrigado a dizer que terá cuidado eu fico preocupada. Porque isso é sinal de que é uma sociedade heterogênea que não tem um projeto nacional apesar de ter passado por transformações importantes pela base” avaliou.

O que nos dá poder são os bancos públicos

“O que nos dá poder são os bancos públicos. O que nos dá poder é ter um banco nacional de desenvolvimento que tem mais recursos que o Banco Mundial. O Banco Mundial pode não querer emprestar nada pra gente se é que eles têm dinheiro pra emprestar. Saberemos se tem algum dinheiro lá porque teremos o representante do Banco falando aqui também” disse em referência à mesa sobre o novo papel das instituições financeiras multilaterais na programação do Seminário que conta com a participação do diretor-executivo do Banco Mundial. “Banqueiro é banqueiro em toda parte. Se o Banco Central ainda facilita e ajuda eles agradecem. Banco só se comporta se o Banco Central obrigar a se comportar é óbvio até parece” resumiu Conceição.

Conceição já havia feito a analise em Carta Maior de que o governo hoje tem fôlego financeiro suficiente para acionar a demanda e o investimento através de uma engrenagem que se baseia em quatro eixos: as políticas sociais a nova política habitacional as obras do PAC e as licitações da Petrobras. A ministra Dilma Rousseff também apresentou didaticamente os mesmos pontos na manhã de ontem e foi citada mais de uma vez por Conceição. “O PAC vai ajudar na crise mas foi concebido como uma política de infraestrutura pra valer. Com ele você tem uma perspectiva mais equalizadora do ponto de vista regional e mais eficiente porque interliga os sistemas. Agora tem problemas que nem o PAC nem nada resolve como o problema das metrópoles objetivamente: transporte saneamento e segurança”.

“Os maiores problemas são juventude e emprego. Manter o emprego dos que estão empregados é difícil graças a Deus que o presidente Lula não tem papas na língua e vai logo batendo nos empresário direto. Aqui são vários que devem ter saído com as orelhas quentes e um dos quais eu vi ele chamar pessoalmente. Porque ele faz demissão coletiva e não cumpre as regras da OIT nem da Justiça do Trabalho brasileira”.

Sermos tardios nos preservou de desastres

“Acho que neste ano vamos crescer pouco mas isso não será negativo. Estamos percorrendo hoje o caminho que a Argentina o Chile e o Uruguai percorreram no século passado construindo um estado de bem-estar social. Nós entramos muito tarde no delírio neoliberal. O Brasil é um país tardio. Neste caso foi bom porque não fizemos o que Argentina Chile e Uruguai fizeram destruindo o estado de bem-estar social que tinham” afirmou Conceição enfatizando as peculiaridades a partir das quais se deve estruturar o enfrentamento da crise com uma lição da história.

Sermos tardios segundo a economista preservou o país de desastres que assolaram países vizinhos sobretudo em termos de proteção social à avalanche financista. E essa realidade em perspectiva histórica organiza o seu otimismo “não apenas pelas nossas virtudes” disse. “Estou otimista porque cometemos vários vícios que agora o grosso da sociedade inclusive a empresarial vai deixar de lado vai abrir. Estamos melhor”.

Políticas públicas de proteção social estruturadas e financiadas como políticas de estado são decisivas não a defesa da agenda keynesiana segundo Conceição. Enquanto a turbulência não dá sinais de arrefecimento a discussão sobre nova arquitetura financeira global importa de menos no diagnóstico da professora. Análise publicada pela The Economist http://www.economist.com/world/americas/displaystory.cfm?story_id=13243343 no mesmo dia em que Conceição falou neste seminário corrobora a tese de que os Bancos Públicos são nota da vantagem brasileira frente à crise. A influência que temos no sistema financeiro diz a matéria determina as condições de segurança para enfrentar a crise. Essa é a chave na perspectiva da economista para aprender com a história.


Fonte: Agência Carta Maior

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